Sempre quis ter uma cortina de renda, porém minha mãe sempre preferiu as cortinas de pano. Para não entrar em discórdia ou entristecê-la, nunca interferi no assunto, pois sempre foi ela que costurou a cortinas de nossa casa.
Graças a Deus sempre tivemos de um tudo, mais nunca fomos ricas e com isso para economizar costurávamos e produzíamos muitas coisas em casa mesmo para economizar.
A falta do supérfluo ás vezes é benefício para o ser humano, pois ele tem que buscar novos ofícios que o ajudem a sobreviver.
Mais por volta dos meus 40 anos eu tive a minha primeira cortina de renda, e aprendi a ficar olhando a vida através desta cortina.
Mais não era a vida dos outros não, eu na verdade revia a minha vida. Sentada na poltrona que herdei da minha tia Aurora, enquanto costurava a mão alguma peça artesanal, via o sol de final de tarde se introduzir no quarto através da cortina e desenhar na parede cada detalhe do desenho do tecido rendado.
Ali eu me perdia nos pensamentos e voltava ao meu passado e revivia as histórias da minha vida.
Às vezes eu chorava, às vezes eu sorria... as vezes eu gargalhava. Muitas vezes eu me deitava para ler e adormecia olhando o desenho feito pela luz do sol através da cortina rendada e sonhava com meus ancestrais.
Algumas vezes gente que eu havia conhecido, outros de quem só havia escutado histórias, ou então, gente que eu nem sabia ter existido.
Às vezes eu lembrava o sonho, às vezes apenas acordava com uma satisfação imensa, inundada de amor, outras vezes preocupada e nos dias seguintes descobria por que.
As cortinas de renda são assim para mim, um portal. Este portal pode nos levar a muitos lugares, lembrar de histórias e sentimentos que pensávamos esquecidos, mais tudo que vivemos faz parte de nós, por isso, estão guardados dentro de nós. E o que realmente importa, é o que fazemos destas histórias, destes sentimentos.

